Historia com Farinha

Por: Débora Galli
deboragalli@hotmail.com
Equipe Jonas Araújo 2016

É difícil falar sobre a violência sexual que tem ocorrido no Amazonas. O tema não é novo, e mesmo sendo algo presente desde sempre em nosso cotidiano, não deixa de ser difícil de abordar.

Recebi o convite para escrever sobre o assunto e fiquei pensando em como realmente poderia contribuir. Não sou uma estudiosa ou pesquisadora do tema. Também não tenho experiência de atuação com crianças e adolescentes envolvidas em casos do tipo. Apesar disso, posso tentar externar como me sinto a respeito e compartilhar algumas ideias para o enfrentamento deste problema – que é nosso.

Participo do Fórum de Defesa dos Direitos das Crianças e Adolescentes do Amazonas  (FEDCA), e logo após uma série de crimes que ocorreram em junho, resolvemos reunir urgentemente e pensar numa agenda estratégica para dar resposta a esses acontecimentos. Nessa reunião, fizemos uma série de questionamentos: A prevenção com os adultos não surte efeito? As próprias crianças estão buscando ajuda? Estão ocorrendo mais crimes? Será que com as redes sociais o tema tem sido mais falado e por isso tantos casos aparecendo? Qual o nosso papel enquanto sociedade civil? Como podemos cobrar do poder público e ao mesmo tempo fazer algo pra combater esse tipo de violência de forma mais intensa? Como estamos fazendo esse trabalho? Estamos falhando?

Essas perguntas nortearam nossa conversa, e apesar de uma agenda de ações construída, saímos daquela reunião insatisfeitos, certos de que para superar ao menos uma parte desse problema, para dar alguma chance a nossas crianças, era necessário muito mais.

A maioria das pessoas que fica sabendo de um caso desses diz sentir indignação. Será? Até onde vai sua indignação? O que você faz de útil com esse sentimento? Culpa e xinga o autor do crime? Chama de monstro e diz que são demônios? Ao meu ver, são pessoas comuns com plena capacidade de julgar o certo e errado, que sentem desejo sexual e se satisfazem. Sim, existem os doentes, mas todos são? Ou existe uma cultura em nossa sociedade que faz com que essas pessoas achem normal cometer esse tipo de violência e que por falha de todo um sistema (cultura machista, pobreza e desigualdade, corrupção e injustiça, etc.) têm a certeza de que nunca serão descobertas?

Sua indignação te faz se colocar no lugar da criança? Te faz pensar com a mente do autor do crime ou abusador?

Nesse momento tem um homem desejando uma criança e pensando no que fará com ela quando estiverem sozinhos.

Nesse momento tem uma mulher cúmplice de abusos sexuais, sabendo que é sua filha que está no quarto ao lado.

Nesse momento tem uma mulher usuária de drogas que engravidou e não poderá abortar pois é proibido – e para muitos, é pecado imperdoável.

Nesse momento existem políticos e empresários comprando crianças ou as sequestrando – para com elas cometer todo tipo de violência e atrocidade.

Nesse momento tem uma criança amedrontada, aterrorizada, rodeada de adultos por fora, mas sozinha por dentro, pensando no que tem sofrido.

Nesse momento a rede de atenção e proteção à criança e ao adolescente falha com suas políticas defasadas e pouco integradas.

Nesse momento um homem introduz o pênis na boca de sua filha de 06 meses e filma tudo para assistir depois.

É importante ressaltar que a violência sexual é só uma parte de um ciclo de violência – em alguns casos precedidos por violência física, psicológica, negligência e tantas outras.

Não existe uma resposta pronta para o enfrentamento do problema. O que acontece na esfera do privado, do “lar”, da “escola”, da “creche”, da “casa do coleguinha”… é difícil de ser controlado. Mas é fato que precisamos nos mobilizar, fazer algo constantemente, não apenas no dia mundial sobre aquela temática ou quando casos extremamente absurdos acontecem.

A rede de proteção precisa ter qualidade e rápida resposta no atendimento (não poderia aqui deixá-los a margem dessa responsabilidade). Escolas, conselhos tutelares, delegacias especializadas, juizado da infância, coordenadorias das infâncias, ministérios públicos, casas de passagens, abrigos, organizações que atuam com educação, secretarias de saúde, hospitais, casinhas e postos de saúde… A rede é ampla e o desafio de fazê-la funcionar com dinamismo e sem expor a vítima novamente é enorme.

Dentro da perspectiva da educação e prevenção,  muitas organizações sociais atuam com bastante responsabilidade- e muito por conta dessas organizações a coisa não é pior. São elas, a partir de projetos, que levam formação e orientação para as bases nas comunidades. Ainda sobre a educação, a mídia tem um papel altamente importante na prevenção e na forma como dá a notícia sobre esses casos (tanto pode ajudar como pode tornar a situação pior e chamar atenção errada). Um caso recente de estupro foi noticiado pelo jornal impresso em Manaus como um conto erótico. Onde está o compromisso desse tipo de ação? Vale tudo pra vender? Até mesmo revitimizar uma criança?

Como mãe e mulher penso todos os dias nessas crianças e adolescentes, em cada detalhe. Algumas noites são piores, abraço minha filha e naquele momento, com todas as minhas forças, desejo que todas as crianças do mundo sejam protegidas. Mas isso não é suficiente. Boa vontade muita gente tem, agora, na prática, isso significa…?

Uma pessoa mobiliza a outra, seja em casa, na rua, no bairro. Se reúna, converse. Por fecharmos os olhos durante muito tempo é que estamos nessa situação hoje. Por quanto tempo mais vamos perder? Quantas crianças ainda terão que ser estupradas para que a sociedade acorde?

Não basta fazer manifestações. Precisamos falar sobre. Precisamos ensinar às nossas crianças que este tipo de gente existe e o que podem fazer. Precisamos apoiar os professores e incentivar o debate dentro das escolas. Precisamos exercer a maternidade e a paternidade com mais amor, mais apego. Nossos filhos (as) precisam ser a prioridade do nosso cuidado.
As políticas públicas têm que funcionar e sofrer avaliação, o prefeito e o governador deveriam ter mostrado o que estão fazendo para resolver o problema (até agora nada foi dito). É quase como se estivéssemos sozinhos tentando apagar um incêndio do tamanho da Amazônia.

O que realmente quero dizer é que VOCÊ também é responsável por mudar essa realidade. Não existe nada que supere um grupo de pessoas determinadas.  A obrigação é nossa e não podemos esperar.

Monte um grupo… de mães, de pais, de amigos. Busque material, converse, preste mais atenção no seu vizinho (pode ter uma criança sendo abusada do lado da sua casa). As crianças abusadas sexualmente têm comportamentos específicos, elas dão sinais, assim como o autor de abusos. Fique atento, procure saber, leia, e junte-se a pessoas que possam ajudar. Pense que uma sociedade educada e mobilizada produz um mundo melhor. E um mundo melhor é um mundo no qual as crianças estão a salvo.

 

Nesse momento, o que você está fazendo?

 

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