Historia com Farinha

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por Jonas Araújo

Quando ouvi essas palavras já tinha terminado a faculdade, era o I Congresso de Estudantes de História da UFAM, eu já tinha participado de diversos congressos a nível local, nacional e internacional mais era a primeira vez que estava na mesa e agora quanto professor “cheirando a leite” como diria minha querida Ruth.

Não lembro bem o título da mesa, se não me engano era “O papel do historiador na sala de aula”, mais de um lado estava o professor mestre Macário Carvalho(na época um dos mais novos do departamento de história), no centro a professora doutora Maria Eugenia(que sinceramente dispensa apresentações) e no outro lado eu representando o professor de educação básica. Foi quando a professora pegou o microfone olhou pra plateia e disse “-Gostaria de pedir licença de todos os estudantes e futuros professores aqui presentes, não venho aqui fazer um discurso altamente teórico sobre a prática de ensino de História, venho lhes dizer por que estou a tanto tempo em sala de aula, e devo confessar a minha cachaça é a sala de aula…”. Nossa! Aquelas palavras ganharam um eco dentro de mim sem precedentes e hoje, passado 5 anos, creio que na verdade era uma espécie de vírus intelectual transmitido por força das palavras.

Já são 5 anos nessa cachaça e devo dizer “já tô leco leco”, como diria o professor Raimundo do Thiago de Mello, e no alto dessa embriagues percebi algumas coisas desse meu vício nada convencional. Na educação básica, seja na rede pública ou privada, a carência dos estudantes do ponto de vista afetivo, cultural e intelectual é tão grande que na maioria das vezes o reconhecimento pelas atividades desenvolvidas só aparecem depois que os estudantes não estão mais na mesma sala que a minha.

Certa vez fui almoçar em um restaurante e encontrei com uma ex-aluna de certa escola particular que trabalhei. Já era 13h da tarde estava morto de fome e no cardápio tinha o meu prato favorito, costela de tambaqui assado, delicia, servi meu prato com água na boca e sentei para devorar o danado, quando de repente uma moça senta bem na minha frente e diz – obrigada, com a cabeça baixa respondi – Não tem de que! Ela riu e disse – não é pelo lugar na mesa, é por ter me deixado de recuperação. Levantei a cabeça com uma cara de espanto e falei – Como é? Ainda rindo ela explicou – Você me deixou de recuperação por não ter lhe entregue os fichamentos de história quando eu estava no ensino médio, hoje faço o primeiro período de direito e da minha turma de mais ou menos 35 alunos sou umas das 10 que passou e adivinha o motivo, por causa do fichamento! Naquela hora olhei fundo nos olhos dela, recordei de onde lhe conhecia, e ainda sentido o cheiro da costela assada me veio uma vontade de dá uma gargalhada, mas dei uma risada discreta, não acreditava que aquilo estava acontecendo comigo, aquela jovem tinha pedido para o pai transferi-la da escola porque acreditava que eu estava lhe perseguindo e agora ela senta na minha frente e agradece vai entender a ironia do destino. Controlei a vontade de rir e disse – Você é aquela aluna que tentou mudar de escola por causa de mim? Ela respondeu: – Sim, quando se é adolescente é difícil compreender a importância dos estudos para um futuro que parece tão distante! De alguma forma você tentou me alertar pra isso, mas não conseguia ver na época, acredito que seria uma aluna melhor se tivesse a cabeça que tenho hoje.

Porra! Essas palavras bateram forte, estava me perguntando a um bom tempo o motivo dos alunos reclamarem tanto das minhas aulas, confesso que já estava a fim de chutar o balde e largar a sala de aula, aí aparece essa ex-aluna dizendo que é difícil compreender a importância dos estudos para um futuro tão distante ainda mais quando se é adolescente. Foi quando a ficha caiu, estava tão obcecado pelo conteúdo e pela fórmula que tinha esquecido do básico as 35 pessoas que estavam sentadas de farda na minha frente, os estudantes!

Aquele almoço me trouxe um alimento que levei tempo para digerir, pensando bem, acredito que ainda estou digerindo. Percebi que os frutos da educação não são colhidos pelo seu agricultor mais sim diretamente pelo seu consumidor. E, como vivemos em uma sociedade consumista é difícil alguém agradecer ao agricultor pelo alimento que tem na mesa, logo, é raro aquele ou aquela que reconhece a importância do educador em sala de aula.

Essa conversa me fez perceber que realmente toda regra possui sua exceção, e por isso gostaria de agradecer a todos os educandos que se lembraram dos seus professores de alguma forma, saibam que esse reconhecimento é muito importante para renovar o espírito de nossa classe profissional. Nos dias de hoje a carreira de professor não tem muito atrativo, na rede de escolas particulares a grande maioria não paga bem e na rede pública nem se fala. Em fim, boa parte desses agricultores da educação não tem incentivo financeiro para continuar em sala de aula, por isso, torna-se fundamental e urgente, já que o governo e os empresários não valorizam o papel dessa ilustre carreira, que tomemos a cachaça da educação e valorizemos com ideias e atitudes concretas essa atividade milenar de cultivar o saber.

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