Historia com Farinha

Luciano

*Escrito por Luciano Roberto

A paixão, assim como o amor são sentimentos abstratos que a humanidade desenvolveu ao longo de sua jornada histórica. São sentimentos puros que se enquadram em relação à pessoa amada, aos filhos, a um bem material, a um animal de estimação e até mesmo a uma profissão. No mundo capitalista de mercado e lucro, nada melhor para um indivíduo do que trabalhar na profissão que lhe causa satisfação. Conheço condutores de ônibus coletivos que adoram dirigir, imagino médicos que se sentem orgulhosos por serem úteis ao próximo, e claro, professores apaixonados em ensinar e aprender, diariamente, na sua praxe construtora de uma sociedade conscientizada. Dando ênfase ao professor, surge a interrogação: porque alguns profissionais da educação perdem a paixão por sua profissão? Pensando nesta questão um tanto complexa, é que elaborei – mesmo que equivocadamente – três possíveis hipóteses, que prefiro chamar de pilares para que ocorra esta falta de compromisso com a educação, pois paixão é envolvimento com o outro, responsabilidade e desejo. O sujeito apaixonado é antes de tudo um utópico, acredita na felicidade, em uma vida melhor e mais digna. A morte das utopias contemporâneas são demonstrações do progresso em que os homens se encontram e, ao mesmo tempo, o seu regresso diante de uma sociedade competitiva. É necessário resgatar as utopias e acreditar na possibilidade de desenvolvermos um mundo melhor. O mestre e humanista Paulo Freire acreditava em uma revolução através da educação; acredito que este é o caminho a ser seguido, mesmo que este caminho seja repleto de espinhos. A ausência de paixão em relação à educação é causada pelo paradigma mantido através do sistema educacional que valoriza mais quantidade do que qualidade. Romper com este paradigma é uma obrigação política, social e cultural de toda a nação brasileira. A razão que causa a perda da paixão dos profissionais da educação é sustentada em três pilares: desvalorização econômica, desvalorização social e desvalorização política. O primeiro pilar, a desvalorização econômica é responsável pela exaustão em que são submetidos à grande maioria dos educadores, muitos chegam a trabalhar sessenta horas semanais, como cita o professor Hamilton Werneck autor do livro Tornei-me pessoa: “Os professores não têm, na verdade tempo para ensinar” (p.12). Ora, se os professores não têm tempo para ensinar, imagine tempo para aprender. A insana corrida exigida pelo capitalismo obriga professores a encararem uma jornada de trabalho muito maior do que deveriam enfrentar. No mundo capitalista a questão econômica é um símbolo de status, levando ao desrespeito e falta de dignidade para as classes menos favorecidas. Não valorizar os profissionais de educação é desmoralizá-los diante da sociedade, pois o respeito e admiração (principalmente por parte dos educandos) acabam sendo decrépito instantâneo. Esta desvalorização cria uma falta de expectativa em relação à profissão de educador, causando certo tormento, mesmo que ingênuo, interrogar-se: será uma profissão extinta no futuro? O segundo pilar é a desvalorização social, que está intrínseca ao primeiro pilar.

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O professor desvalorizado economicamente passa a perder credibilidade na sociedade. Quantos professores já sofreram agressões físicas e orais em seu ambiente de trabalho? Isto é reflexo do prestígio e respeito que o profissional da educação está perdendo. No artigo Professor: história de medos e ousadias, publicado na Revista de Educação AEC, número 143, a Doutora em Sociologia Célia Maria Costa alerta que “a violência, as drogas, o desemprego, o predomínio de uma educação bancária, a questão salarial, a falta de condições de trabalhos são alguns dos medos dos docentes” (p. 38). Conclusão: os professores são reféns dos males causados pela sociedade e, consequentemente, do sistema capitalista. Finalmente, o terceiro e último pilar, é a desvalorização política. Este pilar é de exclusiva responsabilidade de alguns professores que acabam esquecendo (ou não têm conhecimentos) do seu poder político. Muitos professores em véspera de eleição acabam vendendo-se a políticos em troca de pequenos favores. Sendo a educação uma arte política, os professores têm por obrigação usar a sua influencia política para desmistificar as falsas verdades imposta pela classe dominante e ajudar na conscientização e não pensar apenas em si próprio. Tornar-se fantoche nas mãos de políticos é não acreditar na profissão de educador, é auto desvalorização. O professor fantoche-político é responsável por contribuir para a morte das utopias, é culpado na manutenção da decadência dolorosa da educação pública e da sua profissão. Vive a inércia dialética que rasteja a décadas na educação do Brasil. Os professores que perderam a paixão pela educação, precisam com urgência aprender a amar, pois, com o fim da paixão só resta a dor ou o surgimento do amor, como dizia o poeta Renato Russo “é preciso amar…” Sendo que o professor que optar pelo amor, fará a diferença no processo educativo e na construção de uma nova sociedade. Mas amor com valorização. Só posso amar alguém quando sou valorizado e amado. Será que nossos representantes – vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores, presidentes – não percebem? Ou fingem que não sabem? Valorizar o professor é desenvolver um novo Brasil! Valorizar o professor é respeitar a sociedade! Valorizar o professor é uma obrigação!

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