Historia com Farinha

Falar de participação juvenil marcha das vadiasremete-nos às lutas dos movimentos sociais organizados que mobilizaram a sociedade brasileira em prol da redemocratização do país. O termo juventude é um conceito relativamente novo para o estado brasileiro, filho das mobilizações sociais realizadas nas ruas de todo o Brasil pelo povo sedento de liberdade. Para apresentar o debate sobre a atuação política da juventude, primeiro é preciso apresentar um diagnóstico da situação do jovem no Brasil hoje e compreender quem são os jovens e suas necessidades e demandas.
No Brasil a terminologia “juventude” no campo das ações públicas vem sendo utilizada recentemente, já que tivemos um movimento desde a década de 80 por ações no campo da criança e do adolescente que levaram a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA. Entretanto, o ECA abrange a adolescência como o período dos 12 aos 18 anos, com um víeis de proteção social e deixa um período significativo fora de sua ação: as experiências peculiares da juventude após os 18 e até a conquista de autonomia.
A analise desse tema nos provoca a analisar uma passado próximo, visto que até meados da década de 1960, a visibilidade da juventude no Brasil ficou restrita a jovens escolarizados de classe média; o debate se dirigia então para o papel que os jovens ocupavam principalmente na continuidade ou transformação do sistema cultural e político que recebiam como herança. Em seguida, nas duas ultimas décadas do século XX, o foco da preocupação foi a questão das crianças e dos adolescentes em situação de risco, que surgiu como um tema de extrema gravidade, desencadeando tanto uma onda de pânico social como uma importante mobilização em torno da defesa dos direitos destes segmentos. Isso acabou por esvaziar  o debate  no que diz respeito à juventude, fazendo com que este termo, por muito tempo, se referisse ao período da adolescência, muitas vezes como algo indistinto da infância. Abramo(2003) afirma que  os jovens propriamente ditos ficaram fora do escopo das ações, e do debate sobre direitos e cidadania.
Nesse debate temos algumas questões importantes, tais como: Quando começa e quando termina a juventude? Primeiro se é adolescente e depois jovem, ou essas são fases simultâneas da vida? Não existem respostas únicas para essas perguntas. Para a Organização Internacional da Juventude (OIJ), os limites estão entre 15 e 24 anos, parâmetros geralmente usados nos estudos sobre a população. Entretanto, para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a juventude é um processo sociocultural, marcado pela preparação para vida adulta, delimitado em termos de idade entre os 15 e os 19 anos. Buscando outra leitura Luís Antonio Groppo (2000, p. 13-14) afirma que cada termo refere-se a um tipo de transformação que o individuo passa nessa fase da vida. Assim, as ciências médicas criaram o termo “puberdade”, para se referir às transformações no corpo da pessoa que era criança e está se tornando madura. Já o termo “adolescência” foi criado pelos psicólogos, psiquiatras e pedagogos, referindo-se às mudanças na personalidade, no comportamento. Por fim, os sociólogos costumam trabalhar com a concepção de “juventude” quando tratam do intervalo entre as funções sociais da infância e da vida adulta. Para Groppo, adolescência e juventude são fases sucessivas, a primeira mais próxima da infância e a segunda mais próxima da vida adulta.

O tema juventude adquiriu visibilidade crescente nos últimos anos no Brasil. Aumentou o peso relativo dessa categoria etária na população. Os brasileiros de 15 a 24 anos somam hoje 34 milhões, representando cerca de 20% da população brasileira.
(PROJETO JUVENTUDE. Documento de conclusão. Instituto Cidadania. 2004)

As definições etárias são insuficientes para caracterizar o jovem brasileiro e por isso são questionadas atualmente. Afinal, a condição juvenil vem sendo ampliada nos dias de hoje por fatores sócio-culturais de nossa realidade. Essas condições podem ser expressas por meio da dificuldade de autonomia financeira devido à falta de oferta de emprego, submetendo o jovem à dependência econômica e tutela dos pais por maior tempo. Nesse aspecto abordaremos essa temática como uma fase marcada centralmente por processos de desenvolvimento, inserção social e definição de identidades.

O NASCIMENTO DA INTERVENÇÃO JUVENIL POR POLÍTICAS PÚBLICAS.
Até o final do século XIX, as participações estudantis Royalties do petróleoe juvenis em manifestos no Brasil pouco existiram, mas as que existiram, foram importantíssimas para os rumos da história do país, como sua participação nas mobilizações para o fim da escravidão e a Proclamação da República. Com a República consolidada, o cenário político-social do país muda, intensifica-se na área da educação a criação de faculdades e escolas secundaristas, estes foram por todo o século XX o ambiente criadouro de idéias que estimularam a participação jovem em momentos importantes para o país. Na Era Vargas, por exemplo, tivemos movimentos estudantis que mostraram sua cara na luta contra a ditadura de Getúlio. Também nesse mesmo período, os movimentos estudantis estiveram mais organizados e se firmaram como classe, participando da fundação de entidades como a Aliança Nacional Libertadora (ANL) em 1932, a União Nacional dos Estudantes (UNE) em 1937 e a Juventude Universitária Católica (JUC) em fins dos anos 40[1].
Na Amazônia, o primeiro evento estudantil que se tem registro, ocorreu em 1942 no Primeiro Congresso dos Estudantes da Amazônia, onde esteve presente representações de classe enviadas por vários estados da região Norte, cujos principais assuntos debatidos foram sobre a gratuidade do ensino secundário em todo o país e a fundação de escolas rurais na Amazônia[2]. Esse encontro ocorreu de forma pacífica obtendo apoio da interventoria federal do Estado do Amazonas. Nos anos seguintes, a região vivenciou, assim como o restante do país, movimentos que viriam proporcionar o crescimento e aparecimento dos jovens no cenário político nacional.
Apesar de todos os movimentos citados até aqui serem relevantes para a definição do perfil da juventude, somente a partir da segunda metade do século XX é que os movimentos estudantis ganham expressão nacional mais nítida. Na Ditadura Militar, período de fortes repressões, houve sufocamento do governo para toda e qualquer manifestação civil que pudesse existir, e as manifestações estudantis não puderam ficar de fora, pois a juventude era vista pelo Estado como desordeira e como uma grande ameaça ao bom andamento do regime. Em 1965, os militares decretaram a extinção da UNE, onde os estudantes ficaram terminantemente proibidos de se reunir para praticar a militância, mas mesmo em condições adversas, a UNE continuou a realizar clandestinamente congressos estudantis, fato este que, fazia os militares agirem de forma repressiva. A constante violência fez desaparecer muitos estudantes, esta mesma violência enfureceu a sociedade que durante toda a ditadura expressou através de manifestações e protestos toda sua revolta, revolta essa que, possibilitou o aparecimento do sentimento de cidadania, respeito e ânsia por democracia no seio dos brasileiros.
Passado o período de terror da ditadura, os movimentos estudantis e populares são reativados na década de 80 através das campanhas por eleições diretas e pela Constituinte (RUY, 2007), nesse contexto, nossos jovens têm sede por igualdade social e justiça. Dos últimos vinte anos pra cá, a luta na busca por mais direitos e espaços na sociedade continuou e, formas distintas de manifestações sócio-políticas no seio da sociedade brasileira tornaram-se cada vez mais complexas no âmbito da cidadania. Essas manifestações estão relacionadas a uma série de transformações que ocorreram no país devido ao quadro de instabilidade econômica e política pelo qual o país se encontrava. Entre as principais transformações, destacam-se: a inflação, denúncias de corrupção no governo do presidente Fernando Collor, mudanças na moeda nacional, as transformações do capital, a relação do Estado e sociedade, o agravamento da questão social e econômica, entre outras.
Se por um lado, observou-se nesse período uma descrença na participação e representação política, como os sindicatos, as representações estudantis e os partidos políticos, por outro, cresceram “os movimentos de afirmações culturais e identitárias, as lutas por direitos específicos e a intensificação local.
Essa onda de mobilização que tornou visível a juventude coincide com o fortalecimento crescente dos grupos de jovens[3] como espaços privilegiados de construção da identidade e exercício da sociabilidade. Os modelos que surgem nesses espaços de interação e convivência ganham relevo a partir do momento que preenchem a lacuna deixada, ora pela inadequação das instituições tradicionais às demandas e interesses dos jovens, ora pela ambigüidade na definição do papel social do jovem no contexto de prolongamento da juventude. O reconhecimento deste aspecto engrossa as fileiras da visão positivista do jovem e tem como resultado final a transformação da juventude em “modelo cultura”, fenômeno ligado a indústria cultural, que tem sido descrito como juvenilização da sociedade.


[1] RUY, Carolina. Coração de Estudante. História Viva. São Paulo: v.4, n.43, p. 91, Maio, 2007.

[2] Relatório do Interventor Federal do Estado do Amazonas, Dr. Álvaro Maia, de Maio de 1942 a Maio de 1943.

[3] Dentre eles os grupos artísticos, movimentos sociais, eclesiais e políticos, entre outros.

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