Historia com Farinha

*Jonas Araújo Pereira Júnior
Licenciado em História pela UFAM
Pós Graduando em Ética e Política pelo SARES/UNICAP

INTRODUÇÃO


PESQUISA DO JONAS

A mídia desempenhou papel fundamental na construção da imagem da nova liderança indígena Waimiri-Atroari, principalmente através das ações do Programa Waimiri-Atroari (PWA) que substituiu a ações da antiga FAWA. Em abril de 1994 o PWA foi apresentado em um filme documentário, onde a equipe de edição e produção foi apresentada como sendo membros da tribo, o objetivo era valorizar a imagem de indígenas intocáveis.
Stephen Baines vai caracterizar essa ação como parte integrante de um “Indigenismo empresarial”, onde os próprios indígenas comentavam e enalteciam as vantagens de viverem sobre a proteção do PWA, da mesma forma o programa Parakanã oferecia programas de saúde e de educação melhor que o da FUNAI, convencendo assim até mesmo a academia.
Esse tipo de ação surgiu fruto de todo um processo de apaziguamento do desse povo que será relado logo a baixo.

I – A POLITICA DESENVOLVIMENTISTA DO REGIME MILITAR.

Habitando a região do norte do Amazonas e sul de Roraima, nas bacias dos rios Alalaú, Camanaú, Curiaú e o Igarapé Santo Antônio do Abonari, os Waimiri-Atroari são indígenas do tronco lingüístico Carib, as suas terras são ricas em minérios, madeiras de lei, castanhais e os rios possuem potencial energético.
Nesse sentido, podemos compreender como uma região economicamente estratégica, e por isso alvo de interesses particulares e políticos conforme comenta Schwade.

“A experiência vivida pelos Waimiri-Atroari nos últimos vinte anos ilustra o que os povos indígenas sofreram na Amazônia nesse período em toda a parte onde grandes empreendimentos desenvolvimentistas, do governo ou privados, os atingiram, particularmente estradas, projetos hidroelétricos, agropecuários ou minerais”. (SCHWADE, Egydio, 1992. p. 367)

A exploração da Amazônia teve diversos momentos, porem sempre esteve ligado ao objetivo de “ocupar para não entregar”, essa idéia surge ainda no período colonial quando ao fim do séc. XVI a coroa portuguesa resolve fortalecer sua ação na região a fim de não perder espaço para outras nações européias que já estavam estabelecendo fortes em alguns pontos como era o caso dos franceses no Maranhão. Assim compreendemos o processo de ocupação da Amazônia como uma questão primeiramente de ordem estratégica militar (CARVALHO JÚNIOR, Almir Diniz de 2005).
Em um segundo momento podemos avaliar a ocupação dessa região ligada as extração de produtos reis, naturais dessa região, como é o caso da castanha e da borracha, por fim podemos analisar como terceiro momento os grandes projetos de desenvolvimento regional ocorridos ao fim da década de 1950.
Ao fim da construção de Brasília, em 1958, Juscelino Kubitschek impulsiona a abertura de rodovias de penetração para a Amazônia. O regime militar seguiu em frente com o plano rodoviário de Kubitschek. Ainda na “Nova República” o plano rodoviário segue em frente, embora timidamente, porque os grandes projetos dos governos anteriores exauriram os recursos disponíveis da nação.


“Nos anos 1972-1977 esse território foi cortado com a construção da estrada BR-174 que liga Manaus a Boa Vista, seguida pela implementação da mina de estanho de Pitinga do Grupo Paranapanema, a construção da hidrelétrica de Balbina pela Eletronorte, e colonização através de projetos pecuários nos limites da área. Para abrir a BR-174, foi organizado uma operação de “pacificação” e recolocação dos Waimiri-Atroari pela FUNAI cujas estruturas dominam a vida desses índios até hoje.”( BAINES, Stephen Grant, 1993. p. 3)

O Impulso industrial propiciou a criação de grandes companhias de construção de estradas com características de multinacionais, pressionando os governos a ampliarem os seus espaços de ação, assim surge a Mendes Júnior, a Paranapanema, a Andrada Gutierrez. A ampliação da malha rodoviária no país as enriqueceram e sua atuação na Amazônia as aliciou a ampliarem ou alterarem os seus objetivos. A Paranapanema mudou totalmente seus objetivos, fundado em 1961, “para exploração da indústria da construção civil, incluindo projetos e execução de obras de terraplanagem e pavimentação” alterou seus estatutos, incluindo “o estudo, a pesquisa e a lavra de minérios em geral” tornando-se PARANAPANEMA S/A.

“Essa foi a lógica norteadora do planejamento de ocupação da Amazônia. No rastro dessa lógica, o golpe militar de 1964 – politicamente um retrocesso para o país – significou para a Amazônia a inauguração de uma política de integração nacional elaborada em centros e gabinetes distantes, em escritórios de empresas multinacionais e com prioridades ao grande capital nacional e estrangeiro. Essa política dos projetos megalômanos não levou em conta os interesses da população amazônica, nem tampouco a vocação geográfica dessa região. Sua função essencial era a de captar divisas.” (ALVES FILHO, Armando. 2000. p 49-50)

A política desenvolvida para a Amazônia pelo regime militar criou uma relação colonial interna, na qual a região Sudeste tornou-se a metrópole de outras regiões do país, aí incluída a Amazônia.

II – A CONSTRUÇÃO DA BR 174

De acordo Porfírio de Carvalho, ex-coordenador da Funai, a construção de uma rodovia que fizesse a ligação Manaus a Boa Vista era uma necessidade antiga e justificava-se pela dificuldade e distancia para o contato entre essas duas regiões.

Até o ano de 1974, só era possível ir de Manaus ao território federal de Roraima, ao norte do Amazonas, ou por via aérea ou por via fluvial, através de precário sistema de navegação pelos Rio Negro e Rio Branco. Seguia-se pelo Rio Negro até a foz do Rio Branco e por esse rio até grandes cachoeiras, nas proximidades da vila Caracaraí já no território de Roraima, e para se seguir até Boa Vista, capital daquele território, teria que se prosseguir a viagem via terrestre. (CARVALHO, José Porfíro F. de. 1982.)

A população da Região Amazônica estava convencida da importância da rodovia, pois já tinham assimilado o discurso de que essa era uma antiga aspiração roraimense e amazonense, embora os reais motivos tivessem longe dessas aspirações. O subsolo amazônico há muito tempo estava sendo pesquisado em busca de minérios. Decorrentes desses levantamentos as multinacionais impulsionaram o plano diretor rodoviário, e os grandes empreendimentos do governo na região.
Em 1967 o governo do Estado do Amazonas retoma a construção da estrada Manaus- Caracarai – Boa Vista e o Cel. Mauro Carijó , diretor do Departamento de Estradas de Rodagem do Estado do Amazonas – DERAM, solicita informações da Petróleo Brasileiro S/A – PETROBRAS sobre o potencial mineral do Estado.

Efetivamente, já em 1944, aproveitando –se do turbilhão internacional, provocado pela Segunda Guerra Mundial, o governo norte-americano encarregou o “4th Photo Charting Squadron”, do exército daquele país, de fazer o levantamento aerofotogramétrico de alguns rios amazônicos. Entre os quais, não por acaso, estavam o Alalaú, o Alto Uatumã e seus afluentes. Para fazerem as amarrações e observações terrestres desse trabalho, os americanos foram auxiliados por práticos do SPI (Serviço de Proteção aos Índios). Os Waimiri-Atroari surpreenderam no dia 05.10.1944 dois oficiais do Photo charting Squadron, o Tte. Walter Williamson e o Sgto. Baitz, fazendo observações na criminosa(Urtanu, na língua Kiña), do rio alalaú e, sentindo o seu território invadido, mataram os dois, bem como os seus guias e auxiliares brasileiros, com exceção de um só. (SCHWADE, Egydio, 1992. p. 367)

Com isso é possível concluir que certamente a PETROBRAS já detinha informações sobre as reservas minerais da região, Schwade vai alem e afirma que o próprio governador do estado na época, Danilo Areosa, já sabia e por isso protestava contra a interdição das terras Waimiri-Atroari.

A FRENTE DE ATRAÇÃO DOS WAIMIRI-ATROARI

Atendendo uma pressão nacional e internacional contra a os profundos saques sofridos pelos indígenas no Brasil o estado criou a Fundação Nacional do Índio – FUNAI com a finalidade de garantir a integridade física, patrimonial e cultural dos povos indígenas, porem o seu funcionamento esteve dês de seu inicio ligado aos interesses de organismos privados.
Em 1971, 13 de julho, o segundo presidente da FUNAI, o Gal. Oscar Gerônimo Bandeira de Mello, de uma só vez, reduziu quatro quintos do território Waimiri-Atroari, deixando de fora todas as aldeias ao norte do rio Alalaú…Em 1981 novamente com o decisivo apoio e colaboração da FUNAI, 526.800 hectares foram desmembrados da área Waimiri-Atroari, ou seja, toda à parte leste da Reserva, favorecendo a empresa de mineração Paranapanema e a Eletronorte. Posteriormente, em 1982, a FUNAI entregou a uma empresa de segurança privada, SACOPÃ, o controle de toda a restante área situada a leste da BR-174. Mas o mais grave, no que tange política indigenista brasileira na área Waimiri-Atroari, é que se oficializou a invasão a ponto de não apenas 90% da terra restante desses nativos estar hoje requerida por onze empresas de mineração, mas toda vez que entidades… buscam ir ao encontro do interesses indígenas e contra tais empresas, a própria FUNAI sai em defesa das mineradoras e da Eletronorte, demonstrando o verdadeiro concluiu da política indigenista do governo com tais empresas. (SCHWADE, Egydio, 1992. p. 367)

Em 1968 o governo federal assumiu a responsabilidade da construção da estrada -174, através do 6º Batalhão de Engenharia e Construção (6ºBEC) e no mesmo momento a FUNAI assumi a responsabilidade da atração dos Waimiri-Atroari.
Durante a “pacificação”, imposto de forma violenta, a FAWA submete os Waimiri-Atroari a um estilo de vida totalmente alheio as suas tradições, com sua população dizimada por epidemias que desestruturam a rede de aldeias, os sobreviventes passaram a interpretar que as diversas doenças não eram fruto de feitiçaria das tribos locais mais sim dos invasores de seus territórios e passaram a reagir de forma violenta. Com isso a FAWA passa a submetê-los aos campos de ressocialização forçada (aldeamentos da FAWA) onde tinham que seguir a linha do indigenismo oficial calcado no desenvolvimento econômico regional.
O principal objetivo dos servidores da FAWA nesses campos era de desconstruir qualquer relação dos Waimiri-Atroari com o seu passado e com sua cultura, por isso recrutavam alguns jovens a fim de servir como transmissores de ordens da equipe da FUNAI para os demais Waimiri-Atroari a estes era dado o nome de “Capitão”.
Com base nessa reconstrução cultural a FAWA “capturou” os Waimiri-Atroari, a fim de recriar a sua sociedade, impondo-lhes um regime de trabalho disciplinar para tentar transformá-los em trabalhadores agrícolas e redimi-los do seu “pecado original”: os ataques aos Postos Indígenas da FUNAI.
Esse método acabou por influir de forma significativa na cultura dessa tribo, os Waimiri-Atroari denominam todos os seus membros de Kinja, que significa gente, e todos os não membros da tribo, de “Kaminja”. A FUNAI tinha “funcionário índios”, chamados de índios civilizados que passaram a ser os principais repressores da cultura Waimiri-Atroari e os principais exemplos a serem seguidos, com isso passaram a ensinar para os mais jovens que todos os índios eram kinja.

Essa ocultação histórica operou-se através de uma manipulação da classificação interétnica, associando a maioria dos servidores da FUNAI, como “índios”, aos Waimiri-Atroari e rejeitando os “brancos” (predadores da memória Waimiri-Atroari) numa exterioridade social (coordenadores da FAWA, chefes de Postos Indígenas, representantes do governo, gringos) e geográfica que permite excluí-los da problemática histórica local. ( BAINES, Stephen Grant, 1993. p. 3)

Assim podemos perceber que o processo de atração dos Waimiri-Atroari não foi simples e que o objetivo principal estava ligado ao desenvolvimento econômico regional, fruto da política desenvolvimentista do regime militar, deixando a preocupação com os povos indígenas para segundo plano.
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